Hipnose: saiba como a técnica auxilia a prática médica

Não é de hoje que a hipnose figura entre o arsenal de recursos oferecidos por instituições sérias em todo o mundo. Do Memorial Sloan - Kettering Cancer Center, em Nova York, nos Estados Unidos, até o Hospital de Liège, na Bélgica, a prática tem vasta aplicação. No Brasil não é diferente. É opção para diminuir efeitos colaterais da quimioterapia, como dor e fadiga, contra doenças crônicas, psicossomáticas ou autoimunes e analgesia, entre outras. Além de patologias ditas físicas, alguns transtornos de ordem psíquica, como fobias e pânico, também entram na lista de enfermidades com indicação do tratamento.

Estamos, na verdade, falando de hipniatria - ou hipnose terapêutica -, ferramenta bem distante daquela usada como entretenimento, seja no palco ou nas ruas de grandes centros urbanos. “Tudo é feito dentro de uma visão acadêmica, racional, médica, e por um profissional que estudou, se especializou, buscou esse conhecimento específico e se aprofundou na prática em cursos de, pelo menos, 400 horas”, ressalta Dr. Osmar Colás, coordenador do Grupo de Estudos de Hipnose da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e presidente da Associação Brasileira de Hipnose.

O médico se refere à grande gama de estudos que comprovam a eficácia nas mais diversas moléstias. Por meio da ressonância magnética funcional chegou-se à conclusão de que a hipnose provoca mudanças profundas no funcionamento cerebral. De acordo com Dr. Colás, o conceito médico de hipnose é bastante claro: trata-se de um estado diferenciado de consciência, pelo qual ocorre um aumento da capacidade de focar a atenção e um aumento da sugestionabilidade, que decorrem da diminuição do raciocínio critico e de uma série de fenômenos chamados neurosensoriais. “A pessoa desvia a atenção dos estímulos externos e a crítica diminui. Ela passa a entender e aceitar melhor as sugestões dadas pelo hipnólogo", explica.

Mensurar os resultados do método, no entanto, é algo bem singular. “Cada um sofre de uma maneira a dor, o sofrimento físico ou psíquico. É algo muito subjetivo. O que observamos é o alcance da proposta, se corresponde ao resultado esperado, o efeito desejado, seja da analgesia em pequenos procedimentos ou mesmo quando o paciente está em estado de pânico, quando todas as alterações autonômicas típicas desse estado psíquico são debeladas”, explica o neurologista Marcos Leal, fundador do Instituto Mente e Cérebro, em Batatais, interior de São Paulo.

Em Salvador, Dra. Neide Scaldafferi, do Instituto Vita, conhece bem o significado que a dor pode ter na vida do indivíduo. “Na minha experiência pude constatar durante as muitas anamneses que a dor estava na alma, na psique. Muitos mecanismos inconscientes funcionavam como fatores geradores dos processos de adoecimento”, avalia. Para ela, que trabalhou durante 16 anos com diagnósticos de câncer, qualquer patologia pode ser tratada com hipnose. “Considero o fato de não poder separar a mente do corpo. Tudo o que acontece na vida, desde a intrauterina, deixa marcas no inconsciente. Todas as memórias, positivas e negativas, são armazenadas e vão interagir com a mente consciente. Esta, por sua vez, ativa a atividade neuronal, que gera um estímulo para o órgão atacado ou para o sistema imunológico, por exemplo”, explica.

Nesses casos, é preciso fazer com que o paciente saia do foco do sofrimento. Por meio da hipnose, ele é levado a se concentrar em sensações prazerosas, de profundo relaxamento, ‘esquecendo’, o máximo possível, da sensação dolorosa. A criatividade e o conhecimento médico do hipnólogo ajudam muito nessa hora. “Após a indução ao transe, por meio de símbolos e metáforas, buscamos ressignificar a dor”, revela. Na prática, Dr. Leal usa o que ele chama de “luva anestésica”. “Fazemos com que o paciente se imagine colocando uma luva que é capaz de aliviar a dor no local onde ela está agindo”. Um alerta importante: profissionais sérios jamais tratam dores cujas causas não tenham sido identificadas e enxergam, sempre a hipnose como tratamento coadjuvante, sem indicar a suspensão do acompanhamento médico ou do uso de medicamentos.

 

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Contra as fobias, o mecanismo é o mesmo. Uma pessoa com horror a algo pode ‘revisitar’ a situação inicial na infância que desencadeou essa fobia e, com a ajuda do hipnólogo, descobrir que é capaz de enfrentá-la na fase adulta. Esse processo, no entanto, exige cuidado. “É preciso preparar o paciente, criar o que chamamos de ‘holding’, um suporte que o auxilia nessa jornada. Do contrário, é como jogar uma criança com medo do escuro num quarto sem luz e abandoná-la à própria sorte. Como uma mãe, precisamos dar a mão a essa criança e entrar junto nesse cômodo. Mostrar a ela que ali não existe problema algum e que ela pode acender a luz quando quiser”, exemplifica Dr. Colás.

A busca desse novo significado passa, também, pelo aprendizado do próprio indivíduo, de forma que ele consiga, sozinho, se autohipnotizar nos momentos necessários para superar as situações desencadeantes dos problemas. E o recurso denominado “âncora” pode ser fundamental nesse momento. Trata-se de uma sugestão feita durante uma sessão que pode ser ‘acessada’ assim que o sintoma indesejado se manifeste. A pessoa que sofre de Síndrome de pânico pode pressentir o ataque, reconhecer um sinal de boca seca, por exemplo. Nessa hora ele vai seguir a orientação do hipnólogo, feita durante um transe hipnótico, e comprimir o lóbulo de uma das orelhas para que o pânico desapareça. “A mente, que no momento da sessão está extremamente aberta a sugestões, aceita e ao perceber o sinal age conforme a âncora e toda a sensação autonômica some”, ilustra o neurologista.

Aspectos legais

Reconhecida como valiosa prática médica pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) em 1999, a ferramenta já teve seus altos e baixos na história da humanidade. Um dos primeiros registros de sua utilização é feito pelos egípcios. O olhar mais científico, no entanto, teve início no século XVIII, com pesquisas feitas pelo médico austríaco Franz Mesmer. No século seguinte, o inglês James Braid definiu o transe como um "estado de sono do sistema nervoso". Por isso, cunhou o termo hipnose, que vem do grego Hypnos, o deus do sono, ainda que posteriormente, tenha constatado que hipnose e sono são coisas distintas. Já no século XX, o pai da psicanálise, Sigmund Freud, usou o recurso no tratamento da histeria, especialmente a feminina, mas o abandonou. O resgate da técnica aconteceu na Primeira Guerra Mundial, como opção de analgesia durante cirurgias realizadas nos campos de batalha. No Brasil, ela foi proibida na década de 60 por decreto assinado pelo então presidente Jânio Quadros, que só foi revogado durante o governo Collor, já nos anos 1990.

Durante todo esse tempo, charlatões usaram o método em shows de circos, programas de TV e até na rua como forma fácil de ganhar dinheiro, o que acabou por construir uma ideia falsa sobre o que é a hipnose. A imagem de um ser exótico, capaz de transformar seu paciente em zumbi com o balançar de um pêndulo cai por terra quando se conhece um profissional sério que usa a técnica com finalidade médica.

A pedra pendurada em uma corrente não deixou de ser usada, mas é apenas uma das ferramentas possíveis para levar o indivíduo ao transe. Hoje, a maioria das induções é feita por relaxamento dirigido por palavras ou toque em pontos específicos da face. Tudo depende do tipo de resposta que o paciente tem a estímulos visuais ou sonoros. Já em transe, segundo Dr. Neide, podem ser usadas diversas técnicas para acessar o inconsciente. “Isso inclui técnicas cognitivas comportamentais, psicodrama, sugestões hipnóticas. O ideal é que o paciente lembre-se de de todas as experiências vividas e interaja com o hipnólogo durante a sessão”, ressalta

Reconhecimento

Apesar do reconhecimento da prática pelo CFM, é preciso esclarecer que não existe a profissão de hipnólogo. “Existe o médico que a utiliza, o psicólogo que a utiliza, o dentista e assim por diante. Existe apenas a atuação com hipnose por profissionais exclusivamente da saúde e reconhecidos pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS)”, elucida Dr. Colás.

Assim, a hipnose praticada com fins clínicos, deve cercar-se de todos os aspectos legais e éticos da respectiva profissão. É, por isso, essencial que haja a especificação dos objetivos a serem perseguidos, através da informação aos pacientes, familiares ou responsável legal.

“As discussões sobre a regulamentação da profissão são muito calorosas. Dentro da comunidade de hipnólogos, buscamos ter pessoas dispostas a aprofundar o conhecimento com bases científicas. Dentro do ensino da hipnose existem erros conceituais, arcaicos, que podem ser dizimados por meio da neurociência. A hipnose cresceu muito no Brasil, mas a informação científica ainda é pra poucos. De todo modo,  é um estímulo ter o compromisso com a verdade científica”, finaliza Dr. Leal.